Mercado de trabalho aquecido embute armadilhas
O cenário do mercado de trabalho previsto para 2010 é positivo. A tendência já podia ser vista no final do ano passado. Empresas de todos os setores demandaram profissionais de forma intensa, e as mudanças de emprego foram frequentes, mesmo no último mês do ano – quando a tendência tradicional é de desaceleração. Todo esse ambiente positivo, porém, esconde armadilhas que podem afetar futuro de empresas e profissionais.
O diretor de operações da Robert Half, Fernando Mantovani, alerta que estão se tornando comuns as mudanças de emprego com elevação salarial agressiva e as contrapropostas irreais para tentar reter os talentos. “De um lado, os profissionais deixam para trás seu planejamento de carreira em busca apenas da motivação financeira. De outro, as empresas querem reter seus profissionais fazendo contrapropostas insustentáveis a longo prazo ou buscando novos talentos por valores muito acima da média do mercado”, diz.
Do lado dos profissionais, o risco está no fato de que boas propostas salariais geralmente vêm acompanhadas de uma exigência também alta na qualidade do trabalho que deve ser entregue. E são frequentes os casos de profissionais que não estão suficientemente preparados para dar essa contrapartida. O resultado pode ser uma demissão inesperada. “O profissional que cresce aceitando apenas aumento na remuneração não tem a carreira sustentável e colherá os frutos disso em poucos anos”, diz Mantovani.
A falta de credibilidade também pode afetar a imagem. Com o mercado aquecido, os profissionais tendem a participar de muitos processos de seleção, chegando à fase final de vários deles. De acordo com Mantovani, essa atitude é prejudicial porque abala a imagem do candidato diante das empresas. “A saída é ponderar as propostas e deixar claro que está participando de outros processos; ou seja, somente avance nos processos quando estiver certo da decisão tomada, sem voltar atrás.” E isso inclui também contrapropostas.
Do ponto de vista das empresas, a preocupação é a de aumentos salariais agressivos em um mercado aquecido, o que pode formar uma “bolha”. Os dois impactos imediatos são o gasto excessivo com a folha de pagamento e a competição interna de colegas de trabalho com salários muito discrepantes. “Começa a se criar uma inércia desenfreada no mercado. Os riscos são oferecer salários muito acima da média, criar indisposições internas na empresa e também de pensar ser comum fazer contrapropostas para reter colaboradores”, acredita o diretor.
As consequências macroeconômicas também podem vir a longo prazo. Uma delas é a importação da mão de obra, dada a falta de pessoal qualificado para áreas como a de infraestrutura e de logística. Mantovani ressalta que, como o país vive um período de desenvolvimento muito intenso, há um otimismo causado pelo momento de amadurecimento do mercado. “No entanto, existe um ponto em que as empresas deixam de ter crescimento exponencial e passam a ter crescimento vegetativo. Esse é o cuidado que o país precisa tomar: o de evitar a formação de uma ‘bolha’”, alerta.
Faca de dois gumes
Veja a seguir um resumo dos riscos envolvidos
Profissional:
- Planejamento de carreira comprometido;
- Exigência alta e até descabida na qualidade do trabalho (pode causar demissão inesperada);
- Imagem abalada
Empresa:
- Gastos excessivos e insustentáveis com a folha de pagamento;
- Indisposições internas e clima de competição entre os colegas;
- Criação de uma indústria da contraproposta;
- Busca de talentos por valores muito acima da média do mercado
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